Lines of Life

Tradições Têxteis Shipibo-Konibo na Amazônia Peruana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotografia por Tui Anandi

Vídeo por Leeroy Mills

 

IMG_6666.jpg
 

O Projeto

 

No início de março visitamos Paohyan, uma comunidade Shipibo-Konibo de ricas tradições culturais e um dos últimos redutos do 'Chitonti' - têxteis tradicionais indígenas feitos de algodão tecido em um telar de cintura.

Juntamente com a ONG ‘Alianza Arkana’, situada em Pucallpa, durante os últimos 9 meses estivemos desenvolvendo um projeto de apoio e revitalização desses têxteis tradicionais. Através da compra a um preço justo e ao oferecer uma plataforma para a venda em nossa galeria localizada em Cusco, nosso objetivo é valorizar e apreciar a arte, renovando o entusiasmo dos artistas para que essa arte continue por muitas gerações. Ao ajudar a criar um mercado livre e com a demanda por esses têxteis prevemos um futuro longínquo e sustentável para essa tecelagem ancestral.

O projeto é a continuação de um longo trabalho feito por Leeroy Mills e Techa Beaumont (kulchajam.org) que por muitos anos desenvolveram relações com os artistas tradicionais em terras Shipibo.

Neste relatório vamos mostrar o processo completo do ‘chitonti’, desde a fiação do algodão até a pintura dos desenhos finais conhecidos com kené, com comentários sobre a cultura Shipibo-Konibo e mostrando a vida em Paohyan.

 

Paohyan está localizada próxima ao Rio Ucayali, no meio do caminho entre Pucallpa e Contamana, aproximadamente.

 

MAP-xapiri-small.png
 

Shipibo

 

Com uma população de mais de 35,000 pessoas, os Shipibo-Konibo, cuja língua pertence ao tronco linguístico Panoan, representa 8% da população indígena registrada no Peru.  Sendo uma das etnias mais populosas da Amazônia peruana, os Shipibo-Konibo tem uma longa história de contato com os espanhóis. Assim mesmo, foram capazes de manter sua cultura e sua língua, diferente de muitas outras culturas que foram severamente diluídas ou até perdidas. Como todas as outras populações indígenas que hoje vivem na floresta amazônica, os Shipibo-Konibo sofrem severas pressões das influências externas como a exploração e produção do petróleo, mineração, extração de madeira, cultivo de óleo de palma, deflorestação, pesca comercial e o narcotráfico.

Os Shpibo-Konibo são diferenciados pelo seu extenso conhecimento das plantas medicinais e suas bonitas tradições artesanais vistas em suas cerâmicas e têxteis.  Seus têxteis, também conhecidos como ‘telas’, são o pilar central de sua cultura e são reconhecidos como ‘Património Cultural de la Nación’ pelo Peru.

Os Shipibo-Konibo são reconhecidos pela sua rica e complexa cosmologia. Eles vivem no século XXI e ainda assim mantém um pé no passado, estão presentes na floresta amazônica por milênios. Muitas de suas tradições ainda são praticadas, como o ritual xamânico da ayahuasca. Músicas xamânicas inspiraram tradições artísticas e desenhos decorativos que são encontrados em suas roupas, cerâmicas, ferramentas e têxteis.

Similares a outros grupos da Amazônia, os Shipibo-Konibo são animistas. Para eles, animais, plantas e até seres não-vivos possuem espíritos como humanos. Todos os seres tem dois modos ou aspectos, um material e outro espiritual.

 

 

 

 

 

 
spinnew.png
 

 

Chitonti   

 

O trabalhoso processo de fazer um único têxtil de algodão conhecido como ‘chitonti’ – uma saia tradicional – leva cerca de dois meses. Passamos nosso tempo com Pekon Rabi, uma entre oito artistas na vila que ainda praticam a tradicional tecelagem feita no telar de cintura. A venda da arte é muitas vezes a renda das mulheres Shipibo-Konibo e é evidente em Paohyan, onde muitas outras artesãs trabalham somente com arte têxtil.

As mulheres mais jovens em Paohyan preferem trabalhar com algodão industrializado, por ser menos trabalhoso. Elas compram o tecido e bordam com linhas que também são industrializadas.  A geração mais nova não vê necessidade em fiar e tecer o algodão quando podem criar suas peças muito mais rapidamente com materiais comprados.

Agora vamos mostrar a lenta, anciã e mágica forma de arte que é o ‘chitoti’ do início ao fim.

 
IMG_4833.jpg
IMG_4792.jpg
IMG_4795.jpg
IMG_4800.jpg
 

Depois de colher o algodão, ele é seco e ventilado nas vigas das casas. Cada algodão é retirado cuidadosamente da semente e limpo de qualquer impureza. O algodão é espalhado em forma quadricular, em camadas e depois é unido e estirado por meio de golpes feitos com uma vara de madeira conhecida como ‘rishkiti’.

Uma vez estirado, o disco de algodão é enrolado em preparação para ser fiado. Usando um fiador de cerâmica tradicional o algodão é transformado em fios, usando cinzas da fogueira para ajustá-lo e uni-lo. Um único novelo toma dias para ser feito e são necessários cinco novelos para tecer um desses têxteis.

 
IMG_4875.jpg
IMG_4889.jpg
IMG_4912.jpg
IMG_5127.jpg
 

video

Pekon Rabi preparando o algodão antes de ser fiado.

 

.

 
 ‘Pekon Rabi’ é o nome Shipibo de Lydia   

‘Pekon Rabi’ é o nome Shipibo de Lydia

 

Pekon Rabi

Pekon Rabi tem 66 anos de idade e nasceu em uma vila próxima. Seus pais a abandonaram quando era muito nova e foi criada por sua família em Paohyan. Ela aprendeu a arte e o processo de trabalhar com algodão ao assistir seus parentes mais velhos, esse processo é chamado de ‘waxmen’ pelos Shipibo-Konibo.

Ela tem sete filhos, mas somente uma de suas filhas está aprendendo e dando continuação à essa arte.

 
 

 

 

 

 

 
 

Modo de Vida

Meios de subsistência indígena na vila de Paohyan

 

As pessoas em Paohyan ainda vivem de forma tradicional, pescando na maioria do tempo e suplementando sua dieta com hortas cultivadas em suas terras, predominantemente uma variedade de bananas e mandioca, mas também batatas-doces e milho. O pescado e as culturas básicas são complementados com a caça e outros alimentos coletados na floresta.

Entretanto, a situação está mudando pela mudança climática. Com as secas seguidas de inundações, a maioria das árvores com frutos maduros morreram e algumas bananeiras estão lutando para sobreviver.

As estações em Ucayali são drasticamente divididas em um longo período de seca seguido de chuvas que acontecem entre novembro e abril. Durante esse período, Paohyan pode ser submergida quando o rio sobe e as casas ficam logo acima da água, construídas sobre vigas de madeira. Na seca a água volta a baixar de nível, deixando a vila a alguns metros do rio.

A cultura Shipibo-Konibo é passada de geração em geração, enquanto as meninas aprendem a tecer desde muito novas, os meninos pescam e praticam com seus arcos e flechas ao caçar pequenos lagartos pela vila.

 

 Gisela na beira do rio, quando a água está bem próxima às casas durante a temporada de chuvas.

Gisela na beira do rio, quando a água está bem próxima às casas durante a temporada de chuvas.

 A rotina diária de Pekon Rabi preparando o peixe recém pescado na beira do rio próximo à vila.

A rotina diária de Pekon Rabi preparando o peixe recém pescado na beira do rio próximo à vila.

 Pekon Rabi preparando um típico almoço Shipibo: peixe fresco e bananas assadas.

Pekon Rabi preparando um típico almoço Shipibo: peixe fresco e bananas assadas.

 

.

 

 
 
Screen Shot 2018-03-25 at 20.21.06.png
 

O Processo

O Quadro

 

Com os novelos de algodão prontos, um quadro de 6 metros é construído com varas de cañabrava (arundo donax). Desse quadro resultará um longo tecido que será dividido em cinco partes. São necessários dois dias caminhando entre as molduras do quadro com o novelo em mãos antes de transferir todas as centenas de fios para o telar.

 

IMG_5264.jpg
IMG_5177.jpg
IMG_5265.jpg
IMG_6113.jpg
IMG_6108.jpg
IMG_6201.jpg
IMG_6199.jpg
IMG_6220.jpg
IMG_6212.jpg

 

O Telar

Agora a tecelagem pode finalmente começar, esta prática delicada leva tempo e necessita paciência. O resultado é um tecido justo que depois será bordado ou pintado.

Se leva de 1 – 2 semanas para tecer um único tecido, assim é fácil entender porque as mulheres Shipibo-Konibo preferem comprar o tecido de algodão pronto.

 

IMG_6295.jpg
IMG_6288.jpg
IMG_6282.jpg
IMG_6487.jpg
IMG_6564.jpg
IMG_6474.jpg
IMG_6664.jpg
 

.

 

 
 
Screen Shot 2018-03-25 at 20.46.18.png

 

Para a selva

 

Tão importante quanto qualquer parte do processo do ‘chitonti’ é a retirada dos materiais da selva. Com Pekon Rabi, Antonio (marido) e Hildebrando (filho) viajamos de canoa por algumas horas para as profundezas da floresta em busca do que necessitávamos.

Na primeira parada fomos em um rio estreito procurando por barro. Depois que árvores caídas pararam a passagem da água, entramos na selva densa caminhando ao lado do rio até chegar ao ponto onde Pekon Rabi lembrava de ter esse tipo especial de barro no fundo do rio.

 

IMG_5440.jpg
IMG_5580.jpg
IMG_5629.jpg
dive.jpg
IMG_5663.jpg
IMG_5614.jpg

 

Pekon Rabi encontrou o barro no fundo do rio turvo, segurando a respiração por um minuto enquanto mergulhava até o fundo e trazia as mãos cheias de barro.

Depois de coletar todo o barro necessário e guarda-lo em uma panela, já podemos leva-lo de volta à aldeia. Esse barro de cor cinza será usado para tingir os tecidos de preto. Agora toda a atenção se volta novamente para a floresta, buscando as árvores cuja casca será usada para fazer a tinta marrom.

 

video

Na selva, Pekon Rabi encontra casca de Pokoti

 

.

IMG_5657.jpg
IMG_5803.jpg
IMG_5833.jpg
IMG_5576.jpg
IMG_5857.jpg
 

Pigmentos

 

Os pigmentos naturais tem sido utilizados pelos Shipibo-Konibo por muitas gerações, pintando seus corpos, cerâmicas e têxteis. Coletar esses materiais da floresta toma tempo e energia, tanto que recentemente é muito mais comum ver têxteis Shipibo-Konibo pintados ou bordados com cores sintéticas.

A visão desse projeto é trabalhar inteira e unicamente com materiais naturais retirados da floresta. Fornecendo uma conexão contínua ao uso e conhecimento tradicional das plantas, garantindo que essas práticas ancestrais continuem.

 

Quatro dos pigmentos mais comuns são:

 

 

 

Urucum - o nome Shipibo-Konibo é ‘Máxe’ = Vermelho

Barro - o nome Shipibo-Konibo é ‘Máno’ = Preto

Cúrcuma - o nome Shipibo-Konibo é ‘Koron’ = Amarelo

Mogno - o nome Shipibo-Konibo é ‘Pokóti’ = Marrom

 

 

IMG_7289.jpg
IMG_7314.jpg
IMG_7331.jpg
 

 

 

 

 

 

 

 
IMG_5708.jpg
 

A Realidade na Vila

 

Alguns anos atrás Paohyan estava a 10 horas de barco da crescente cidade de Pucallpa, agora com lanchas mais rápidas a viagem dura 3,5h. A comunidade é uma vila Shipibo-Konibo bastante tradicional, mas hoje é possível ver muitas influências do mundo ocidental. Como a distância de Pucallpa se torna cada vez menor, o impacto ocidental aumenta com a chegada de bens materiais produzidos na cidade.

Paohyan consiste de uma única rua longa com muitas de suas casas funcionando também como lojas para a vila, vendendo refrigerantes e comidas industrializadas. Próximo do campo de futebol central existe uma igreja evangélica e uma estação de rádio. A rádio pode começar a funcionar a qualquer hora do dia, tocando música alta e notícias através de alto-falantes estrategicamente posicionados em todos os cantos da vila. A fala na rádio é somente feita em linguagem Shipibo-Konibo, um forte sinal de que a língua ainda está viva e ativa, ao contrário de muitas outras línguas indígenas da Amazônia que estão mais ameaçadas de extinção.

 
 A rua principal de Paohyan pode estar completamente submersa quando chega o período de chuva.

A rua principal de Paohyan pode estar completamente submersa quando chega o período de chuva.

 O apresentador da rádio *somente em linguagem Shipibo*

O apresentador da rádio *somente em linguagem Shipibo*

IMG_4956.jpg
 Uma das muitas lojas da vila, vendendo comidas e bebidas industrializadas.

Uma das muitas lojas da vila, vendendo comidas e bebidas industrializadas.

IMG_5331.jpg
IMG_6000.jpg
 Extração de madeira em pequena escala na selva – 1h desde Paohyan selva adentro.

Extração de madeira em pequena escala na selva – 1h desde Paohyan selva adentro.

 Com uma maquinaria antiga e pesada que sempre necessita manutenção, os madeireiros sobrevivem com dificuldade.

Com uma maquinaria antiga e pesada que sempre necessita manutenção, os madeireiros sobrevivem com dificuldade.

 

 

 

 

 
Screen Shot 2018-03-25 at 21.25.46.png
 

Kené

 

Kené (‘desenho’, ‘invólucro’ e ‘caminho’), é um tipo de expressão performada em maioria por mulheres da comunidade Shipibo-Konibo. De acordo com as narrativas Shipibo-Konibo, as mulheres aprenderam a criar seus próprios desenhos copiando os padrões do corpo de uma mulher divina conhecida como ‘Inka’, um conceito que na lingugem Shipibo-Konibo significa ‘celestial’. A arte do Kené expressa tanto a simetria quanto a assimetria da ordem cósmica, passando do mundo invisível ao mundo visível. Para descobrir esse mundo imaterial que o Kené mostra, é necessário estabelecer contato através de um ritual.

Uma conversa com a antropologista Luisa Elvira Belaunde (Universidade Federal do Rio de Janeiro) nos ensina que as mulheres artistas aprendem a ver os desenhos em seus ‘xinan’, seus pensamentos. Tais pensamentos podem ser ativados através de sonhos e visões e podem ser adquiridos com o uso ritualístico de plantas poderosas, como a ‘waste’ e restrições alimentares e comportamentais. Homens também podem ver os desenhos, mas normalmente tomam forma durante rituais xamânicos usando o alucinógeno ayahuasca e outros ‘rao’, plantas medicinais. Através de visões despertadas pelo uso ritualístico da ayahuasca, praticantes podem ver desenhos e escutar músicas, conhecidas como ícaros. Uma explicação tradicional sobre o Kené diz que os desenhos representam uma canção específica ou um ‘icaro’. Com essas visões uma pessoa pode aprender as canções e usa-las em rituais de cura, para depois reproduzir a arte correspondente. Etnologista Angelika Gebhart-Sayer, chama isso de ‘música visual’.

Porém, existe uma diferença entre o Kené tangível e intangível. Ambos homens e mulheres podem ver o Kené em visões através do uso de plantas e em situações ritualísticas específicas. Mas, normalmente, somente as mulheres materializam suas visões, cobrindo seus corpos e artefatos com os desenhos, usando técnicas de tecelagem, pintura e bordados para trazer o mundo espiritual ao mundo físico. Se crê que a arte de desenhar e aplicar o Kené em objetos do dia a dia era muito melhor desenvolvida antigamente do que nos dia de hoje. O Kené era aplicado em todas as coisas: roupas, cerâmicas, utensílios ou nas vigas das casas. Em festas, as pessoas normalmente pintavam seus rostos com Kené e os homens cobriam seus braços e fumavam tabaco em cachimbos decorados com Kené.

Muitos dizem que, sem as mulheres, os homens não teriam adornos materiais já que atualmente os desenhos Shipibo-Konibo são quase todos feitos somente pelas mulheres. Provavelmente os homens se separaram do processo de desenhar devido à mestiçagem e ao machismo do século XX. Também porque os objetos que os homens costumavam fazer (em maioria talhados em madeira) agora são comprados – como facas, cadeiras... e não há interesse em essas coisas. As coisas que vendem são os produtos feitos pelas mulheres. Então apesar de hoje existir uma predominância de mulheres na fabricação da arte Shipibo-Konibo é muito provável que seja algo recente. A arte de fazer o Kené não é estática e continua a mudar em meio as transformações sociais, culturais e econômicas que afetam o território e as comunidades dos Shipibo-Konibo. Dada a atual devastação extrativista das terras Shipibo-Konibo, produzir o Kené garante uma importante fonte de subsistência para muitas mulheres e famílias as quais estão cada vez mais inseridas na economia turística.

 
IMG_7099.jpg
IMG_6856.jpg
IMG_6924.jpg
IMG_6810.jpg
IMG_6989.jpg

 

O Kené não tem somente a função estética, mas é também agente ativo de proteção da saúde física e espiritual dos Shipibo-Konibo. Os padrões são um diálogo contínuo com o mundo espiritual e com os poderes da floresta, dos rios e dos céus. Os desenhos não somente servem para o propósito de decorar e ornamentar: eles representam um sistema inteiro de comunicação com os espíritos das plantas. Além de vierem da imaginação individual, cada peça também é baseada na consciência coletiva de toda a tribo Shipibo.

Muitas plantas e animais são retratados no Kené, mas mais importante é o desenho da Anaconda (Ronin Kené), a mãe de todos os desenhos. Quarenta e cinco elementos gráficos são distinguidos pelo professor Shipibo-Konibo Lauriano Rios Cairuna. Esses elementos podem ser divididos dentro de grupos que representam o seguinte:

 

  1. Natureza (ex.: rios, montanhas)
  2. Divindades (ex: sol, lua)
  3. Estado físico de uma pessoa (ex: força, nostalgia)
  4. Atividades humanas (ex: andar em um caminho, remar uma canoa, dançar em uma festa)

Entendemos assim que para os Shipibo-Konibo, tudo o que podemos chamar de ‘arte’, como o Kené, são expressões de entidades mágicas vistas por meios sensoriais, rituais e utilização de plantas.  A maioria dessas formas geométricas estão relacionadas às percepções cósmicas e são expressadas por figuras que representam esses seres divinos, animais ou objetos.

Mesmo com o mito de que o Kené chegou aos Shipibo-Konibo através do corpo de uma mulher Inca, a antropologista Luisa Elvira Belaunde aponta a atual importância do Kené para a identidade cultural coletiva dos Shipibo-Konibo no Peru, na economia turística e na cena artística contemporânea do país frente ao resto do mundo. Seu reconhecimento como Herança Cultural Nacional em 2008 é um merecido tributo aos Shipibo-Konibo que com sua perseverança e criatividade tem conseguido fazer com que os peruanos aprendam com eles, assim como aprenderam dos seres celestiais Incas a admirar e praticar o Kené.

 

 

 

 

 

 

 
IMG_6949.jpg

Conclusão

 

A visão de longo alcance da Alianza Arkana e Xapiri não é somente apoiar as mulheres mais velhas que ainda levam essa tradição, mas encorajar as novas gerações a aprender essa arte. Com tempo e usando parte do lucro das vendas dos têxteis na galeria Xapiri, o plano é prover workshops os quais os idosos podem ensinar as mulheres jovens e transmitir esse conhecimento ancestral.

O projeto também trabalha com os aldeões para estabelecer uma plantação de algodão pequena e sustentável que possibilitará um legado, incluindo variedades de algodões coloridos que se perderam, que poderão ser plantados e disponibilizados para as mulheres. Isso garantirá que as mulheres terão algodão suficiente para usar. Ao educar as pessoas sobre essa arte, seu espaço especial na cultura Shipibo-Konibo e o tamanho do processo de fazer cada peça esperamos encorajar a apreciação de seu verdadeiro valor e maestria.

Para Alianza Arkana o objetivo é cultivar o direito de autodeterminação, fornecendo meios de subsistência culturalmente apropriados para os Shipibos que coloquem o controle da cultura em suas mãos, reafirmando o orgulho pela identidade indígena e apoiando a continuação das carcomidas práticas culturais e ao mesmo tempo tendo renda a partir dos meios de subsistência culturalmente apropriados para artesãos e juventude da tribo Shipibo.

Isso reflete como o compromisso da Alianza Arkana a criar soluções regenerativas para as comunidades indígenas da Amazônia é centrada no bem estar, através de melhorar o acesso à oportunidades econômicas, saúde e educação para assegurar sustentabilidade e promover a autodeterminação. Focada em construir alianças comunitárias para regenerar, Alianza Arkana cria relações mútuas com as comunidades da Amazônia peruana para cultivar soluções sustentáveis e confrontar desafios sócio ecológicos.

 

16112571_10154961630357002_7031501486172893124_o.jpg

Obrigado, Paul.

Gostaríamos de dedicar esse trabalho em memória de Dr. Paul Roberts (co-fundador da Alianza Arkana) que infelizmente faleceu esse ano. Paul era influente no início desse projeto e dedicado a trabalhar e apoiar a nação Shipibo. Ele está conosco em espírito e deixa seu legado de inspiração.

.

A equidade é extremamente importante na cultura Shipibo-Konibo. Curandeiros que trabalham com estrangeiros podem, com frequência, atrair olhares invejosos por conta de sua renda e do nível de cuidado que suas famílias recebem por causa dessas relações.  Em Paohyan, existem poucas oportunidades de ganhar dinheiro devido à distância da cidade. Cada vez mais as famílias estão sendo forçadas a migrar para Pucallpa para manter uma vida que requer dinheiro.

A visão desse projeto é dar aos membros da comunidade a oportunidade de terem renda através de sua bela arte, mas ainda assim continuar com sua vida tradicional em Paohyan.

Usando Pekon Rabi como um exemplo, o dinheiro ganho através das vendas de seus têxteis ajudou seu filho a estudar, pagou remédios para sua filha e ajudou a construir uma nova casa para sua família. Pekon Rabi é um exemplo de como seu saber ancestral tem um papel importante para as necessidades de sua família no mundo atual. Com a crescente demanda por têxteis ‘chitonti’, outros artistas de Paohyan terão oportunidades de seguir o exemplo de Pekon Rabi.

 

 À esquerda, casa antiga de Pekon Rabi a qual agora é usada como seu atelier e sala de comer ao lado da cozinha. A nova casa foi construída com o dinheiro ganho através do projeto e é onde sua família dorme.

À esquerda, casa antiga de Pekon Rabi a qual agora é usada como seu atelier e sala de comer ao lado da cozinha. A nova casa foi construída com o dinheiro ganho através do projeto e é onde sua família dorme.

 

A arte tem um papel importante na cultura indígena e é vital que essas tradições se mantenham vivas para que a identidade Shipibo-Konibo continue forte. Com a cultura Shipibo-Konibo viva, naturalmente seus costumes e cultura está continuamente evoluindo, mas juntos devemos assegurar que essas tradições mais antigas e complexas como o ‘chitonti’ não serão esquecidas, porque não será somente uma perda para a cultura Shipibo-Konibo, mas para toda a humanidade.

Ao publicar esse relatório, esperamos criar uma referência para maior entendimento das tradições têxteis Shipibo-Konibo, para que essa forma de arte seja valorizada e praticada por muitas gerações.

 

 

Para ver a seleção de têxteis disponíveis para venda, por favor entre em contato ou visi-te nossa loja online here.

 
IMG_7264.jpg
IMG_7282.jpg
IMG_7266.jpg
 

 

Referências:

La corona de la inspiración. Los diseños geomètricos de los Shipibo-Konibo y sus relaciones con cosmovisión y música (2009). Bernd Brabec de Mori / Laida Mori Silvano de Brabecc
Mundo semiotico de diseños (2004).
Maria Belén Soria Casaverde
Kené: Arte, ciencia y tradición en diseño (2009). Luisa Elvira Belaunde
The Geometric Designs of the Shipibo-Conibo in ritual context. Angelika Gebhart-Sayer
collor_04.jpg